Autismo

Adequação social e aperto de mão

Toda vez que informo que sou autista há sempre alguma pessoa que diz “mas você nem parece autista”. No início eu ficava chateada e interpretava esta atitude como falta de consideração. Com o passar do tempo e muita terapia, entendi que quando alguém diz algo assim demonstra o tanto que ela desconhece o autismo. Embora ainda ficar chateada, aproveito a oportunidade para explicar a pessoa o que é o Transtorno do Espectro Autista.

Para as pessoas neurotípicas ou típicas (termo usado para pessoas que não estão dentro de neurodiversidades como o autismo) saber o momento de cumprimentar alguém e a forma adequada de fazê-lo é algo simples e automático. No entanto, para mim é um ato complexo e, às vezes, confuso. Por muitas vezes fiquei com a mão estendida no ar, no vácuo, por não saber o momento certo de cumprimentar.

Devido ao bullying que sofri durante toda vida escolar e as tentativas fracassadas de interação adequada durante a vida adulta, passei a evitar ao máximo interagir com as pessoas, inclusive por ligação ou mensagem. Me apeguei a ideia de que não gostava das pessoas, foi a forma mais fácil de lidar com as tentativas fracassadas de interação e do porquê não entendia as pessoas. E mesmo sem saber do autismo, eu cresci e comecei a trabalhar. O trabalho ainda é o ambiente mais desafiador para mim e acredito que para todos os autistas.

Desde os quinze anos faço acompanhamento psicológico para aprender a lidar com as pessoas. Sempre gostei de estudar sobre o comportamento humano e a partir de 2011 comecei a estudar livros sobre linguagem corporal. Foi a partir daí que aprendi a iniciar contato com as pessoas e a ler melhor os sinais não verbais, que muitas vezes dizem mais que os sinais verbais.

Eu queria aprender principalmente a ler sinais de quando as pessoas se entendiavam com meus assuntos, que hoje sei que são hiperfocos e que autistas podem falar de seus hiperfocos o dia todo sem se cansar, mas as pessoas se cansam de ouvir por horas sobre uma mesma coisa. E não conseguia notar isto. Então os livros “Como conquistas as pessoas” e “Desvendando os segredos da linguagem corporal”, ambos dos autores Allan e Barbara Pease, e mais recentemente os livros “Manual de persuasão do FBI” de Jack Schafer e “O corpo fala” de Monika Matsching foram fundamentais na minha adaptação ao mundo típico.

Em meio a este cenário, passei em um concurso público e me tornei Oficiala de Justiça, onde lido diariamente com dezenas de pessoas. No início, embora aparentasse externamente muita calma e tranquilidade, tudo era caótico dentro de mim. Mas com o conhecimento adquirido por estudo e observação das pessoas desenvolvi um método próprio para cumprimentar as pessoas.

Quando vou interagir com uma pessoa ainda existe a ansiedade e apreensão se devo ou não apertar sua mão. Raramente eu estendo a mão. Normalmente espero a outra pessoa estender a mão e a cumprimento. Neste momento devo ter foco e atenção para conseguir ter uma resposta rápida que pareça natural e não crie um clima de que sou diferente ou estranha.

E o que era para ser um simples aperto de mão, no meu caso, torna-se um esforço diário e continuo, e muitas vezes exaustivo, mas que me faz pertencer de forma mais adequada aos ambientes sociais, em especial, no profissional.

Um comentário

  • damiana bezerra de franca silva

    sor agora emtendo seu comportamento filha era calada mais foi uma crianca inteligente aluna nota dez foi uma adolescente que naõ mim deu preucupaçaõ meua ti amo

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